Final de sábado, um chai latte em um Starbucks qualquer. Acabo de sair de um filme bobo que se vendeu como romântico no trailer mas na verdade é uma história sobre mudanças e a inevitabilidade da vida.

Confesso que as vezes preciso desobilar um pouco e procuro filmes que tem chances de me fazer chorar. Esse, porém, me deixou pensativa. No enredo, uma vida que acorda cada dia em um corpo diferente começa um relacionamento com uma menina que se apaixona por sua essência e não por sua aparência. A fórmula para o desastre começa quando esse ser decide ficar em um corpo só – e evitar a mudança, em nome do amor.

A cada gole da minha bebida com gostinho de cafuné me questiono como seria se nós conseguíssemos revelar nossa essência nos primeiros encontros. Se essa coisa chamada personalidade fosse o que definisse nossa identidade, nosso perfil nas redes sociais, nossa imagem no Tinder.

“Oi, tudo bem? Eu sou o indisponível afetivo” ; “Muito prazer, eu sou o tipo que se apaixona a toa”. “Sinto muito, senhor, pessoas de espírito livre e desapegados não podem entrar nessa festa”. “Oi, tudo bem? Demos match porque estamos em busca de sexo com pessoas diferentes a cada noite. 22h na minha casa? Traga camisinha”.

Nem sempre rostinhos bonitos representam boas personalidades. Muitas vezes um olhar desleixado e uma barriguinha saliente pode esconder sua alma gêmea de vida. Olhos verdes e apaixonados dizem sim hoje e deixa rolar amanhã. E a vida segue inevitavelmente com incertezas. Dizemos que é sem marcas, sem traços, sem história. Apenas o hoje e uma pessoa fofa e lovely a cada dia.

Porém, a cada pequena entrega, nós aprendemos um pouco, mudamos um pouco, nos fechamos um pouco, nos machucamos um pouco, sim, só mais um pouquinho, e viramos, e transformamos e continuamos em busca de alguém que simplesmente diga que nos ama porque nós somos nós. E ainda assim, quando mudarmos, que essa pessoa continue nos amando porque mudamos. E que quando ela mudar, possamos continuar juntos. Porque mudar também é lindo. E necessário.

Termino minha bebida e sigo minha vida, olhando a lua de eclipse da janela do meu Uber, com a única certeza de que em um mundo líquido de oportunidades, sigo aprendendo e mudando.

Meio sem saber, sigo meio na esperança de que um dia alguém simplesmente me veja e me enxergue além do nervosismo e da ansiedade, além das roupas coloridas, além do sorriso e da empolgação ao falar do último livro que li, da última série que assisti, além da minha mensagem insistente de boa noite e de bom dia, uma seguida da outra. Alguém que esteja em mudança e enxergue que também estou mudando, e aceite mudar e aprender comigo. Alguém que saiba que amor não existe quando não fazemos marcas e deixamos traços pelo mundo.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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