“A reciprocidade não existe na intenção de um só.”  – Guilherme Pintto

 

Estar em um aeroporto sempre me faz pensar sobre chegadas e partidas.  Relações que começam, chegam e tem seu fim, partindo para algum destino sem saber se voltarão.

Ele apareceu devagar, como quem não quer nada, com jeitinho de quem acredita em algo mais, e a felicidade foi instantânea. O coração bateu mais rápido. Desde o começo, parecia que poderia se tornar algo especial.

Tudo se desenrolou muito rápido: um, dois, três encontros. Quando dei por mim já estávamos enroscados na mesma cama. Foi bonito e intenso. No dia seguinte, durante o café, ele confessou que estava com seu coração preso ao término de um relacionamento recente.  Não estava aberto para amar. Nessa hora eu devia ter desistido, mas insisti.  Ele não pediu para eu me apaixonar, e eu tentei não deixar acontecer.

Após mais uma noite incrível com ele, eu disse para mim mesma que era hora de se despedir.  Afinal, ele não estava disponível emocionalmente.  Tive orgulho de mim por ter tomado esta decisão quando ele me deixou na estação de metrô no dia seguinte.  Mas aí ele me procurou. A cada dia, dizia que estava se recuperando e se sentindo cada vez melhor.  Achei que seria seguro.  Ele não pediu para eu me apaixonar, mas começou a acontecer.

Fui chamada de trevo de quatro folhas, mergulhadora capaz de salvá-lo da caverna, luz no fim do túnel, a única que tinha lugar na fila.  Ele disse cheio de carinho que precisava dos meus cuidados, mas pontuou que não nutrisse expectativas pois o amor ia nos guiar. Que aconteceria quando tivesse que acontecer. Me falou de aspirações, como se um dia o sentimento pudesse ser recíproco se eu tivesse paciência.  Eu acreditei.  Ele não pediu para eu me apaixonar, mas não consegui mais segurar.

Aí um dia ele lembrou de novo da ex, disse que ainda estava sofrendo.  E eu fiquei insegura.  Tive medo de ser apenas uma cura ou um suporte emocional que seria esquecido quando ele estivesse bem novamente.  Me permiti ser vulnerável e falei dos meus sonhos e sentimentos, mesmo sabendo que ele não estava pronto. Ele não pediu para eu me apaixonar, mas eu já estava apaixonada.

E então, feliz por ter sido eu mesma, na primeira oportunidade que apareceu, atravessei a cidade para me permitir revê-lo.  E encontrei alguém que estava ainda mais indisponível. Busquei por reciprocidade e encontrei o vazio.

Nos próximos dias, as mensagens passaram a ser mais frias e distantes. Quando questionei, fui informada que minha confissão tinha soado como uma cobrança por um relacionamento e que isso o deixava triste, deprimido e acuado.  Que eu era encantadora, mas não respeitara seu momento.  Hoje, ele estava vazio de amor.

Passei uma noite me perguntando se eu tinha pecado por me deixar ser vulnerável.  Se talvez eu devesse ter contido meus sentimentos e esperado por ele.  Mas não.  Eu sempre vou desejar alguém que possa andar a meu lado sem medo.  E se ansiar por um “talvez” quando o “não” se apresenta é errado e pura expectativa, muito prazer, meu nome é Isa e eu sou humana.

Uma vez me disseram que primeiros encontros ideais são aqueles que não existem silêncios ou medos, apenas a vontade de se conhecer e o desejo por estar juntos. Porém, insistir em relações que não te trazem reciprocidade é fatal.  Nessas horas, abrir caminho para deixar que algo melhor surja é sempre a melhor opção para todos os envolvidos.  Por isso, resolvi então dar a ele o tempo que sempre desejou. Afinal, ele nunca pediu para eu me apaixonar. Fui eu que deixei acontecer.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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