Saiu na Internet esses dias: cabra sofre de ansiedade e só se acalma com fantasia de pato.  Aparentemente, uma moça de algum lugar do planeta resolveu adotar uma cabra super nervosa que quando veste uma dessas fantasias de bichinho infantil, fica super zen e afetuosa. Apresento a vocês, Polly, a cabra-pato.

Essa notícia com cara de sensacionalista (mal posso esperar pelos brinquedinhos e produtos licenciados), me fez loucamente pensar:  e quantas vezes na vida que nós só ficamos calmos quando vestimos uma fantasia?  Até que pontos gritamos e berramos por um relacionamento, e quando ele vem, por mais que nos acalme, não faz parte de nossa essência? E quando ele não vem?

Recentemente conheci uma pessoa bem interessante em uma balada.  Rolou química. Rolou papo. Rolou tudo.  No dia seguinte, eu estava sendo cobrada por estar enrolada com compromissos pessoais e não dar a atenção devida. Uma antiga Isa largaria tudo e vestiria a fantasia da apaixonada, sem nem pensar duas vezes.  Mas dessa vez eu não quis.  Resolvi observar o outro gritar por um relacionamento sem nem sequer me conhecer direito.  Deixei até ele perceber que eu não vestiria esta fantasia e se afastar.

Puxa, Isa, quanta insensibilidade. Será?  Será que me tornei uma pessoa má e insensível?  Ou será que fiz um bem a ele e a nós dois?  Não me sinto errada porque eu não estava apaixonada.  E fiquei surpresa como é fácil de se iludir ou se vitimizar quando estamos no desespero por um mínimo de atenção. Porque euzinha já estive no outro lado.

Claro que todos nós temos nossa bagagem de tragédias emocionais.  Mas acho muito complicado quando fazemos valer delas para nos autosabotar ou dizer para nós mesmos “eu sabia” quando tudo dá errado. Não, você não sabia.  Ninguém é capaz de saber se o outro é uma cabra disfarçada de pato ou se você é a cabra que se enfiou na roupa de jacaré.  A gente não sabe nunca! E sim, a gente faz isso por amor.  Porque amor deixa a gente zen, equilibra, harmoniza.  Mas por quanto tempo dura a fantasia e lembramos que somos cabras disfarçadas?

Depois de ter vivido dois longos relacionamentos/casamentos, confesso que perdi minha paciência para DRs.  Claro que sempre vão haver ajustes e claro que nem sempre estes ajustes vão ser harmonia pura, porque isso faz parte do amor, mas prometi para mim mesma que em todas as ocasiões, antes de apontar o dedo para o outro, vou antes me perguntar:  qual é a minha parcela de responsabilidade nisso?  Qual é a fantasia que estou vestindo aqui que talvez eu não esteja enxergando?  Que expectativa louca é essa de querer que o outro corresponda ao que eu achei que ele deveria corresponder, quando na verdade isso seria impossível, porque somos seres humanos diferentes?  O que eu estou aprendendo com isso e como posso melhorar?

Fazer o exercício de se despir das fantasias de pato que nós mesmos criamos para nos sentirmos bem é doloroso. A gente esquece os avisos e pedidos do outro para sermos mais cuidadosos, para ouvirmos mais.  A gente ignora toda a sinceridade que já foi dita e todos os combinados.  Porque a gente se sente lindo naquela fantasia fofa!  Todo mundo curte!  Então a gente só pode estar certo.  E o outro se torna o grande vilão da história, porque nós somos a pobre cabra, vítima de um transtorno e só queremos nos sentir bonitas. E Zen. E relaxadas.

Estou solteira hoje.  Não levanto a bandeira pró-solterice, porque gosto de estar casada.  Gosto das conversas longas sobre o tudo e o nada no café da manhã e no jantar.  Gosto de fechar os olhos e saber que quando abrir de manhã, vou ver um rosto conhecido a meu lado.  Mas estou tentando abandonar as fantasias e ficar bem comigo mesma, como cabra, esperando até que eu encontre alguém que me ame como sou – inclusive naqueles momentos em que visto a dragoa porque estou cheia de problemas, ou a macaca porque estou afim de uma briga. Ou a hipopótama que comeu uma pizza inteira e ficou chorando de culpa.  Alguém que não crie expectativas de que um dia eu vá caber nas fantasias que ele costurou para mim.  E que saiba pontuar com muito amor e carinho quando as minhas fantasias, feitas quase sob medida, estiverem incomodando demais e precisarem ir para o lixo. Porque amar não é tolerar a fantasia de pato do outro e sim saber reconhecê-lo, amá-lo e perdoá-lo por saber que por baixo daquilo tudo tem uma cabra incrível.


Polly, a cabra

Polly é uma cabra que foi adotada, após descobrirem que ela sofre de ansiedade, além de ser cega, ter problemas neurológicos e pesar muito pouco. Para acalmá-la, quando tem crises de ansiedade, a dona costuma colocar uma fantasia de pato na cabra.   Saiba mais clicando aqui.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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