“Acho que estou me tornando uma pessoa sem paciência”. Devo ter repetido essa frase umas cinquenta vezes desde que o ano começou, em contextos e situações diferentes. Dizem que quando você repete algo com muita convicção, é porque aquilo se tornou uma verdade absoluta para você.  Quando me vi repetindo essa frase durante um bloco de carnaval, resolvi parar um pouco para pensar a respeito.

 

Passamos boa parte da nossa vida sendo tolerantes.  É aquele crush que não visualizou e não respondeu sua mensagem,  aquela pessoa esbanjando felicidade no Facebook quando sabemos que ela não tem nem onde cair morta, aquele pessoal que finge gostar de coisas que nem sabe soletrar direito.  É aquele protesto pró qualquer coisa na Paulista. Aquela paródia musical gay que parece inclusiva mas todos os personagens são afeminados. E desce a timeline.

Fico as vezes impressionada como que tem gente que se apega a problema.  As vezes ele nem existe e está lá a pessoa sofrendo por ele.  Que nem aquele crush que simplesmente resolveu parar de responder e a pessoa fica tentando decifrar qual foi a palavra que escreveu que pode ter sido mal interpretada.  Nenhuma.  Ele simplesmente arranjou outra pessoa para se divertir.  O que fazer com o ex que aparece com um “oi sumida”?  Querida, ele não vai mudar,  só quer um revival rapidinho pra suprir a carência momentânea.  Aquele cara que te traiu? Você fica se lamentando no Facebook?  Jura?  Simplesmente pare. Sem paciência para você também.

Claro que tenho expectativas.  Eu fantasio sobre tudo, sobre todos. Fantasio sobre meu café da manhã fantástico em algum dos lugares paradisíacos que quero conhecer.  Beijo alguém com mais intensidade e já penso na gente fazendo compras no mercado e eu dizendo “amor, entra na fila da carne, enquanto eu escolho os legumes aqui”.   Mas o tempo e a experiência me diz que essa brincadeira pode ser perigosa se a gente não sabe quando parar.

As vezes é dificil viver o hoje, ao invés de se apegar ao passado, lamentando tudo o que deixamos de fazer ou ainda, insistir que o futuro só vale a pena se for exatamente do nosso jeito.  Cheguei a conclusão que a minha falta de paciência talvez fosse porque passei muitos anos oscilando entre um e outro, e agora precisasse parar de brincar de boneco de posto afetivo. Minha solução?  Colocar tudo em ordem. Criei na minha cabeça louca um planner, um “Bujo” emocional. E cada vez mais, sinto prazer em dar check em cada tarefa cumprida.

Os crushes estão todos lá, bonitinhos, organizados por dia e horário. Não me deu a importância devida? Risco da agenda.  Quarta eu tou cinza – que nem Pablo e o grafiti da lapiseira.  Respeitou minha vontade de passar a sexta vendo Netflix e comendo Ben & Jerry’s? Desenho uma estrelinha colorida do lado do nome.

Eu sei, a concorrência é desleal. Já jogou a #bujo na sua rede social? Tem gente realmente profissional no mundo lá fora. Dá cada vez mais trabalho explicar o caminho certo pra chegar no nosso coração. As vezes nem infográfico, miga. É preciso criatividade, charme, carisma, maquiagem, canetas coloridas.

A falta de paciência? Ela continua, as vezes. Nem todas as páginas são lindas, coloridas e organizadas. Mas a cada virada, ela volta com força total, pois sei que sou capaz de deixá-la ainda mais bonita que a anterior. Estou descobrindo que o amor próprio é a lumicolor que não pode faltar no planejamento. Quando a gente tira a expectativa exagerada, e percebemos que nem sempre o outro encaixa na nossa lista de prioridades…. só sobra espaço para o mozão.  Amar é lindo como deveria ser, mas exercer a gratidão e a compaixão é um exercício que só torna essa tarefa ainda mais bonita.  E que venham os aprendizados.  O resto é só sticker para enfeitar nosso bujo afetivo.

 

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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