Nunca entrei e sai tanto de aviões como no último ano.  Após mais de 30 anos vivendo em uma só cidade, nunca tinha me imaginado como uma nômade, daquelas que quando questionada sobre seu endereço, respondesse “aqui e acolá” (Rory, eu te amo).  Mas aconteceu.  Da mesma forma que aconteceu a tragédia da Chapecoense que matou tanta gente.

Nesse minuto você deve estar pensando: “Ah, não, até a Loira falando disso?”.  Sim, até mesmo eu.  Porque a morte não cai bem nem com um vestido Prada.  E o que mais tenho feito ultimamente é subir e descer de aviões. Neste momento exato estou digitando este texto de uma sala de embarque.  A gente nunca sabe o que pode estar esperando pela gente ali na esquina – uma incrível sold out de Burberrys, o Chris Evans ou simplesmente o fim.

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Claro que sou trágica, dramática, leonina.  E me dou ao direito de ser assim. Todo esse medo coletivo da morte, que é trazido a tona diante de tragédias como essa, traz junto a sensação de que a vida é muito curta e admitir quem somos, qual a nossa essência, ganha um peso muito grande.

Por que que ao invés de fingirmos para agradar convenções ou grupos sociais, simplesmente não assumimos nossas incapacidades?  Nossos pontos a melhorar? Nossas limitações?  Por que temos este ideal estranho de que temos que ser perfeitos, do contrário terminaremos sozinhos, com gatos devorando nossos olhos e vizinhos encontrando nosso corpo dias depois por causa do cheiro?

Confesso que algumas vezes passo dos limites. Perco a paciência. Desisto de pessoas interessantes porque elas não me deram atenção na hora que eu precisava.  Insisto em relações que obviamente vão dar errado.  Pago fortunas em um prato daquele restaurante chique e descubro que o sabor não corresponde a foto, porque gente rica não se alimenta de nada além de luz, água e instagram.  Tenho 30 livros na estante para ler e acabo comprando mais um porque achei a capa bonita e a história interessante (não necessariamente nesta mesma ordem). Gasto pequenas fortunas em roupas que uso uma vez e esqueço no armário.  Faço-me de vitima exatamente como neste parágrafo.

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Mas a verdade é que não somos obrigados a nada. Enquanto humanos, nos achamos invencíveis, mas a grande verdade é que somos frágeis. Sentimos muita dor, choramos escondido, um tombo pode nos levar para uma mesa de cirurgia, sentimentos guardados por muito tempo nos dão uma coisinha cruel chamada câncer.  Então porque será que nos cobramos tanto por coisas tão pequenas? A felicidade parece ser tão inatingível que muitas vezes esquecemos de apreciar as pequenas coisas simples da vida: a graça de uma xícara de café (ou chá para os ingleses) em uma tarde fria. O cheiro da chuva que está por vir.  A conversa dos estranhos na mesa ao lado. Cheiro da casa limpa, de carro novo.  A nova temporada de Gilmore Girls.

Que esta tragédia da Chapecoense nos traga luto, nos traga revolta e tudo o que deveria nos trazer.  Estou de luto como todo mundo. Mas que ela também sirva para que a gente reconheça nossa fragilidade diante de tanta correria.  Meus saltos andam gastos de tantas reuniões, a ponto de estranhar quando tenho tempo para mim.  A partir de agora fica como a primeira resolução de ano novo ser uma legítima apreciadora da minha própria companhia sempre que o trabalho deixar – e, de vez em quando, poder cancelar um compromisso comigo mesma para dar a outras pessoas o prazer de compartilhar estes momentos.  Sorte a delas que não sou humilde.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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