Entre todos os lugares do mundo em que acho os mais curiosos, devo admitir que sou fascinada por aeroportos.  Seria muito clichê da minha parte dizer que é o local onde todos os povos e culturas se encontram, então, é claro que este não é o motivo.  Na verdade, o que me encanta é o fato de que a sala de embarque é o lugar onde pessoas são pessoas.

Neste exato momento, na minha frente está uma mulher falsa loira, de meia idade, que desistiu de digitar algo em seu Mac e de ouvir músicas com seu Beats by Dre, para deitar toda torta na sua mochila da rua da alfândega.   O embarque mal começou e uma fila de mais de 30 pessoas já começou a se formar, enquanto dois preguiçosos atendentes da companhia aérea parecem não estar com a mínima pressa de liberar os passageiros para a aeronave – apesar da quase 1h30 de atraso do vôo.  O alto falante anuncia “desculpem os transtornos, estamos trabalhando para um melhor aeroporto.”

Em um lugar em que teoricamente deveríamos estar nos movendo, estamos parados, esperando que outros permitam o nosso avançar para outro país, outro espaço, outra cultura.  Esperando por algo melhor.   E nada acontece.  Ao menos não no tempo que esperamos.  E olha que ainda vem as horas de vôo, as não-refeições, as turbulências, as poltronas desconfortáveis….

Penso o que seria do aeroporto se alguém se levantasse e proclamasse o caos, a desordem, o direito de capuccinos grátis e travesseiros de pena para compensar a incompetência dos serviços pelos quais pagamos tão caro.  E se aquela senhora ali na esquerda, de lenço florido, se levantasse, tirasse o pullover vermelho e começasse a dançar ao som de Banana Song de BeetleJuice?  E se aquele menino de chapéu e casaco amarelo ovo entrasse em combustão espontânea por ter agredido todas as regras da fashion police conhecidas no universo?

medo aviao

As vezes, precisamos sair de nosso lugar comum e vencer a inércia se queremos que algo aconteça.  O inusitado muitas vezes pode ser a solução que precisamos e está ali, bem diante de nosso nariz, mas preferimos nos esticar e deitar – só um cochilo enquanto o celular carrega, depois, de volta ao Candy Crush.  Entramos na fila apenas para nos sentirmos guardando o lugar, para a falsa impressão de que estamos fazendo algo, quando na verdade, continuamos parados, morosos, a espera de salvação.  Somos assim em nossos empregos, em nossos relacionamentos.  A vida passa e o avião nunca chega, a fila nunca anda.  Não ouvimos aquela angelical voz nos dizendo “passaporte, por favor”.

Woman in Airport Waiting Area --- Image by © Radius Images/Corbis

Eu? Eu resolvi escrever um texto. Acredito no ócio criativo.  Imagino se alguma dessas pessoas está olhando para mim e inventando histórias loucas sobre meu digitar frenético no teclado ou meus olhares sorrateiros para quem está ao meu redor. Imagine só alguém com o mesmo grau de psicopatia que eu, no mesmo aeroporto?  Seria bom que nos conhecêssemos, pois poderíamos dividir a caixa de Rivotril durante o vôo – afina, o preço dos psicotrópicos está pela hora da morte hoje em dia.

Ops.  A fila gigante se dividiu em duas e começou a andar.  Preciso me mexer ou perco meu vôo.  Em Aeroportos, e na vida, precisamos estar atentos aos sinais e nos mover na primeira oportunidade.  Do contrário, o avião levanta vôo e deixa você a espera do próximo que estiver disponível.  Se houver.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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