As vezes gosto desse meu lado romântica incurável.  Mas tem outras vezes que realmente gostaria de ser mais cética, mais racional, sem esse mimimi de rosas e champagne.  A vida seria bem mais fácil.

Imagine você.  Estou eu nos meus quase 10 minutos de aquecimento da academia e meu Deezer começa os primeiros acordes de Cool Kids, daquela bandinha que o Glee descobriu e muito em breve será esquecida. Talvez por efeito da endorfina matinal, resolvi prestar atenção na letra e tive mais um devaneio epifânico.  Sim, eu gostaria de ser uma Cool Kid.

beaut

Eu gostaria muito de ser aquela heroína dos livros, que está quieta e emancipada, cuidando de sua vida perfeita, até que conhece um homem pretensioso que acaba se tornando o príncipe de sua vida e virando seu mundo de cabeça para baixo.  Gostaria de ser aquela esposa perfeita, que trabalha oito horas por dia, chega em casa e troca o tailleur por um avental e ainda assim, está cheirando a rosas na hora de receber o marido em casa com um delicioso prato de Julia Child. Queria ser aquela mulher linda e auto suficiente, que sabe que é boa de cama e que seu homem jamais a trocaria por nenhuma vagabunda (ou várias).

Queria também ter coragem para largar tudo e fazer uma viagem pela Índia, Itália e Tailândia. Ou encher uma mochila com muito mais coisas do que o necessário e passar semanas me alimentando de mingau de aveia fria em um deserto dos Estados Unidos. Queria descer do céu em um guarda chuva e transformar a vida de duas crianças filhas de um banqueiro egoísta.  Seria ótimo também se pudesse simplesmente sacudir o nariz como a Samantha e ter a casa limpa, comida pronta e camas bem feitas.

Sam's_nose

Se pararmos para pensar, a vida é cheia de Cool Kids. Somos bombardeados por elas em filmes, livros, novelas.  Os relacionamentos de nossas amigas são sempre melhores, os outros possuem qualidades que somos incapazes de possuir e a grama do vizinho é sempre mais verde.   É um sintoma mundial, uma cegueira que dá sentido a metáfora de Saramago.  E o pior é que a cura não é tão complexa. Desculpa, Freud.

E se nós aprendêssemos a valorizar aquilo que temos e aquilo que somos? Aqueles momentos de alegria que jamais serão esquecidos? Ou melhor ainda… e se nos esforçarmos para obtermos esta alegria, ao invés de colocarmos ela em um patamar tão inatingível?

Maridos e namorados que nos amam e nos respeitam felizmente tem suas imperfeições, porque senão seriam incapazes de aguentar as nossas.  O trabalho tem seus altos e baixos, a comida eventualmente queima, os relacionamentos terminam,  e daí?

O espelho não mostra aquela barriga tanquinho, os peitos não são tão grandes, mas até que o corpinho dá conta do recado – ao menos ninguém nunca reclamou até hoje.  Ufa, já posso comer mais um pedaço daquele chocolate. Viagens não me faltam, disposição para fazê-las também.  O dinheiro a gente junta, o guarda-chuva a gente carrega na bolsa para dias de chuva e o nariz a gente guarda para não meter onde não somos chamados.

Posso não ser uma Cool Kid.  Mas no auge dos meus quase 36 anos, posso dizer que vivi bem pra caralho. E que quero mais, muito mais.

no-pregnancy-chocolate

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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