Este não é um blog de futebol.  Muito menos um daqueles sites onde você vai encontrar posicionamento político,  nacionalidades ou unânimidades burras.  Porém, fica difícil ficar sem comentar sobre nosso jogo contra a Alemanha.  Ou, mais especificamente, sobre a forma com que lidamos com a derrota.

Tadinho do meu filho, tão injustiçado...
Tadinho do meu filho, tão injustiçado…

Desde pequenos, somos inseridos em um contexto social onde a perda não é algo aceitável.  Já na creche, vemos as mães competirem para mostrar suas crias, onde mais inteligente é aquele que falar “mamãe” primeiro ou realizar algum feito extraordinário antes do seu amiguinho.  Na escola, quando já temos alguma consciência moral, competimos com nossos colegas das mais variadas formas – quem subiu na árvore sem se machucar, a menina que tem a boneca mais bonita e por aí vai.   O importante é ser sempre o melhor, nunca estar abaixo do outro.

A coisa fica mais sintomática quando inserimos os hábitos culturais nessa salada.  Cada país tem a sua maneira de lidar com a derrota. No Brasil,  o time de futebol vem antes até da certidão de nascimento.  Orgulho do pai é aquele filho que joga bola e faz gol desde pequeno.   Meninas de ouro são aquelas que não fazem travessuras e aceitam a submissão.  A perda e os erros, porém, não existem porque nunca são culpa nossa, mas do outro.  Das condições climáticas.  Do governo.  Da promessa que não paguei para o Exu Caveira. Mimimi.

O resultado é que viramos adultos que não sabem perder e por isso buscam justificativas, não interessa se elas são plausíveis ou não.  Afinal, não era isso o que acontecia na nossa infância? O professor era ruim, o coleguinha era levado demais, a mãe do outro não dava educação,  o moleque do time adversário fez uma falta e o juiz ladrão não apitou, a namorada que me deu um fora era uma vagabunda.   Nunca fomos culpados, sempre fomos vítimas.  E continuamos sendo.

Exatamente como uma criança mimada faria, bares foram quebrados, turistas assaltados, monumentos vandalizados.  E no dia seguinte, várias justificativas – das mais técnicas as mais cretinas.  Teve site por aí perdendo tempo desenvolvendo toda uma teoria da conspiração, que só não envolvia alienígenas porque faltou dinheiro para Dilma pagar a nave espacial.

Não é dificil, assim disse SuperNanny. A lição que precisamos aprender é uma das mais básicas: saber lidar com as consequências, leia-se estar preparados para o pior e  assumir as nossas falhas.  Grandes nações são hoje quem são porque descobriram, através da derrota, que tinham força para se reerguer – estão entre elas a França, Inglaterra e… *pausa dramática*….  a Alemanha.

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Isso mesmo. A Alemanha.  Nossos tão temidos algozes aprenderam há muito tempo atrás sobre ego e suas consequências em um coisa  chamada Segunda Guerra Mundial.  Eles são lobos. Não esperava menos de um time de lobos.

E nós?  Será que aprendemos com a Copa 2014?  Vamos educar melhor nossos filhos (sem jogar toda a culpa na qualidade da educação)?  Vamos votar com consciência (sem alegar que todo o político não presta)? Vamos assumir nossos erros (sem apontar o dedo para o outro, que sempre é o filho da puta)?

Perdemos a batalha e perdemos feio. O que falta agora é abandonar o estigma e mudar a forma de agir com os outros e consigo mesmo.  Precisamos deixar de ser meninos.  Enquanto essa mudança não vem… Herzliche Gluckwunsche, Deutschland!

 

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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