“Tenho muito interesse e fico fascinado em ver como as pessoas se amam, mas não gostam realmente umas das outras”

As Vantagens de Ser Invisível – Stephen Chbosky

Entre um meme e outro na Internet, acabei esbarrando em um texto bem interessante sobre casais que moram juntos ou que decidiram juntar os trapos.  Se minha memória não falha, eram 10 mandamentos que deviam ser seguidos para que o casamento continuasse firme e forte.

Todos tinham um quê de verdade, mas aquele que mais me chamou a atenção falava de como era fácil nos acostumarmos com o outro em nosso dia-a-dia, a ponto de tornarmos o companheiro invisível.  É a inegável rotina, aparecendo mais uma vez como a grande vilã dos relacionamentos.  O comentário é pertinente, mas senti falta de algo mais.  Antes de nos colocarmos no status de samambaia ou objeto decorativo,  ou fazermos isso com o outro, o que nos leva a chegar a este ponto?

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Alguns diriam que é falta de amor, como se essa palavrinha de duas sílabas fosse a justificativa para tudo.  Errado.  Eu posso amar a pessoa até o cerne dos ossos, mas ainda assim, transformá-la em um objeto inanimado.  Diante das contas para pagar,  trabalhos domésticos para executar, amigos para lidar,  é muito fácil esquecer que o outro está ali, porque simplesmente ele está ali.  Fato verdade, inegável e invariável.

O que pode destruir a relação não é coisificar a pessoa.  E sim, a incapacidade de lidar com essa condição.  Posso ser mais claro:  imagine uma bolsa que você gosta muito guardada no seu armário.  Você a carrega diariamente, é parte inseparável de você.  Porém, se de tempos em tempos, você não parar, esvaziá-la de seus pertences, passar um lustrador no couro e tratar de conservá-la, em pouco tempo essa bolsa vai se desgastar.  Aquilo que não cuidamos, não dura para sempre.  Regra da vida.

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Sempre tem um para dizer: “mas eu cuido!”.   Será?  É muito fácil passar um paninho e dizer que a bolsa está limpa.  Dificil é ter aquele cuidado periódico e perder ao menos algumas horas para garantir que aquele objeto vai durar para sempre.  Ou ao menos, que seja eterno enquanto dure.  Mais do que isso: ter prazer em ter esse cuidado. Cuidar da sua bolsa não pode ser obrigação.

Quando falamos de pessoas, ter este cuidado extra significa se dar ao prazer de ir naquele restaurante mais caro, mesmo em um mês difícil para os dois,  e falar de amenidades, da terra, do céu e do ar, sem mexer no celular (a não ser que seja para estimular ou corroborar o assunto).   Significa sentar ao lado daquela pessoa em um dia comum e puxá-la para um abraço,  fazer um carinho, um cafuné, a troco de nada, apenas para lembrá-la que você estará ali para ela, não importa o que aconteça.  É também saber, as vezes, contemporizar uma discussão, mesmo que você saiba que está certo – até porque, acredito que 80% das brigas de quem mora junto, começam por motivos banais, como uma pia cheia de louças ou quem vai fazer o almoço hoje.  Feio é quando isso vira motivo para uma briga hercúlea.

Claro que ninguém é perfeito.  Não acredito que alguém no mundo seja capaz de fazer isso o tempo todo e, se houver,  acho doença passível de tratamento (todos precisam de um pouco de amor próprio).   Mas, da mesma forma, não acredito que existam pessoas que não gostem de ser mimadas, de ter seu ego lustrado, de ouvir que está bonito hoje, de se sentirem amadas.  Creio que é isso o que faz com que nós, seres humanos, busquemos a companhia do outro.  Somos gregários, queremos e precisamos andar em bando, até porque é muito chato viver somente com o próprio reflexo.

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O que você ganha com isso? A lei universal do retorno.  Cuidar da sua bolsa, significa que ela vai estar sempre pronta para atendê-lo e trazer o que você busca.  No casamento , significa se sentir amado e um estímulo para retribuir na mesma medida.  A troca, e mais do que isso, a troca por prazer, sem obrigação, é o que mantém o relacionamento vivo.  Sem ela, a invisibilidade vira solidão.  E ai, inevitavelmente e instintivamente, estaremos sujeitos a uma nova compra – e acredite, em tempos de internet, vitrines e propaganda são o que não faltam por aí.  Mas isso já é assunto para um novo post.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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