Houve uma época em que eu era jovem e ingênua, trançava o cabelo antes de dormir, só usava esmalte claro no pé e me achava uma boa pessoa por não fumar maconha. (Já dá pra sentir que a vaca foi pro brejo sem escalas, né?)

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Eu me apaixonei por um rapaz tatuado de olhos verdes. Namoramos e eu cheguei a ponderar nosso futuro juntos, pensava nos filhos lindos que ele poderia me dar. Mas havia um porém. Ele precisava crescer, se emancipar do seu passado, dos seus problemas com a família, da sua história. Lógico que todos temos nossos traumas, mas ele carregava tudo dentro dele de uma maneira muito pesada, muito doído ainda pelos fatos da sua vida. Ele fazia parecer que fora abandonado quando era ainda um bebê na porta de um matadouro e cresceu limpando chaminés e fazendo pequenos furtos nas feiras de domingo, até ser adotado pelos ciganos do circo de horrores que fazia shows cruzando o Leste Europeu no inverno. Pobres crianças de apartamento, vão ter sempre pesadelo com o elevador pifando.

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Enfim, este era pra mim o nosso problema a ser resolvido para que pudéssemos ser felizes e levar uma vida harmoniosa e pacífica. Se fosse pouco acreditar nisso, eu ainda acreditava que eu, eu, com minha literatura fina garimpada em sebos e meu amor que era mais útil do que falar a língua dos homens e dos anjos, seria a mulher heróica e transmutadora responsável pelo ascensão dele à luz e à paz. Pensando aqui, acho curioso como eu nunca tive no meu carro aquele adesivo “Eu acredito em duendes”.

Como era previsível, um dia não aguentei e dei um basta, acabei a relação sem mais novas segundas chances e segui em frente, movi minha vida, mais reto e decidida do que a onda do mar com a Angela Bismarchi (Toma aqui, pode ver de novo, nunca deixa de ficar engraçado).

Terminar foi imperdoável, seguir em frente foi uma ofensa; na cabeça dele, sou pior do que o Coringa pra Gotham, mas com um primer melhorzinho. Donde concluímos que ele aprendeu menos do que um pombo a plantar bananeira. Seguindo…

Pouco tempo depois, fui completamente arrebatada por um rapaz de ombros largos e voz rouca. Vivemos um idílio de altas velocidades ao som de baixos bem equalizados e conversas trilíngues madrugada adentro. Quando a gasolina acabou, eu entendi que para ele, um relacionamento estável era mais novo do que o iPhone10.

Então via que muitos do nossos problemas se deviam ao fato de eu estar lá pagando de Capitão Kirk, atravessando uma fronteira onde nenhuma mulher havia ido antes.

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Sendo assim, a cada crise ou briga, eu respirava fundo e compreendia que aquilo era parte do processo dele de aprendizado sobre amar e ser amado. Ai, como eu era linda e fofa, tão fofa que todos os meus elásticos de cabelo tinham cor de cotonete.

Hoje as coisas são diferentes. Não sou mais tão ingênua, mas continuo jovem (obrigada, ácido retinóico!). Muita coisa mudou, economizo na manicure fazendo só as unhas da mão, troquei a maior parte dos elásticos por grampos, entendi que nada que você faça ou deixe de fazer te faz uma pessoa mais meritória de ser salva de um prédio em chamas e estou desenvolvendo meu próprio método divinatório baseado nos desenhos que meu cabelo forma quando acordo.

Então eu me pergunto, onde foi que eu li que os problemas somem com o tempo? Que as coisas ficam mais fáceis com o passar dos anos e a chegada das contas, dos filhos e a sogra entrona sendo promovida à avó? Quando foi que eu achei de verdade que à medida que vamos ficando mais velhos, as coisas melhoram? Pior é que eu não tenho ninguém pra culpar por essa a não ser eu mesma.

Hoje? Seguranomeupau!

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Apucaráleo que eu não vim a essa vida com vocação de ser princesa da Disney; não sou a Bela pra aguentar bicho selvagem se civilizar para virar homem; não fico mais beijando sapo pra ver se vira príncipe. Até porque, não quero príncipe. Quem se lembra bem do final do filme, o Fera não vira um homem. Aquela cena toda que faz o Cirque du Soleil parecer peça de final de ano do colégio do sobrinho da vizinha termina com um dandy de gloss rosinha que tinha acabado de sair de uma propaganda da L’Oreal.

Resultado, pra ficar comigo agora, tem que ser homem, e de verdade, não pela metade, ou vem pronto, sem medinho de assumir responsabilidades e posturas reais na vida, ou vai brincar de boneca. Ou já chega sabendo que eu sou uma mulher, e não uma foto ou um cartaz do Elvgren, ou vai limpar a bunda com urtiga. Ou sabe se relacionar, sem mimimi de criança mimada precisa-me-amar, sem achar que eu tenho que adivinhar e resolver todos os problemas inventados pela sua cabeça, ou tchau. E acho bom entender que não sou filial da sua mãe para receber e atender as reclamações e frustrações que você guardou dela até chegar nisso que você chama de vida adulta.

Nada desses rapazes que vivem no reino encantado em que as cuecas brotam dobradas dentro da gaveta e a lixeira é um portal dimensional para a Comlurb, sem escalas ou mau cheiro. Chega de ter pachorra para esperar que esses Max Steel cresçam pra ver que bicho que vai dar. O bicho é isso mesmo, já deu. A vida tá correndo lá fora e você vai ficar regando pé-de-gente pra descobrir o que vai dar? Não, pessoa bonitinha!

Alguém vem transformar suas havaianas velhas em Pradas da última coleção? Alguém pega suas roupinhas de lavar quintal e transforma em tendência primavera-verão? Se o mais fácil não rola, não espere por um milagre. Aliás, pergunte a qualquer biólogo, sapos não devem ser engolidos nem beijados; devem ficar em seu habitat natural, o brejo.

O que faltou à Bela foi alguém chamando a atenção da moça para o fato de que se você não sabe segurar um talher e comer sem expor o excelente trabalho do seu dentista, seu lugar não é sentado à mesa comendo de pratos de porcelana. É com os cavalos, bebendo água do tonel e dormindo no feno.

Escrito por Agatha Tuddot

Agatha Tuddot é ruiva, workaholic, doutorada, poliglota, troglodita, e adora confundir. Terrorista filosófica, a quem os simplórios chamam de vaca feminista. Pode até falar de homens, só quando não tiver mais nada pra fazer.

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