Resiliência.  Não é todo mundo que entende o significado dessa palavra.  Apesar dela fazer parte do nosso Aurélio, trata-se de um termo pouco comum, reconhecido somente por físicos, engenheiros e amantes da literatura – categorias dentre as quais me encaixo na última, com orgulho.

Toda vez que se pensa em construir uma estrutura, seja ela um prédio ou uma cômoda de quarto,  é preciso se fazer um estudo da resiliência dos materiais.   Sem analisar o quanto cada parte é capaz de resistir antes de se quebrar, nada fica de pé (ou o risco de se quebrar é muito maior).

Acho interessante como essa palavra não é utilizada por estudiosos do amor, psicólogos ou antropólogos.  Todo o ser humano tem a sua resiliência.  E não falo de quanto peso conseguimos levantar na academia e sim do nível de adversidades que somos capazes de suportar para criar, construir e manter um relacionamento.

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Acabo me perguntando: qual é o limite da resiliência? Como identificar e evitar o momento que tudo o que foi construído se quebra e não vale mais a pena continuar?  Muitos preferem não se arriscar, e desistem, pulando de um relacionamento para outro, com medo.  Outros já se quebraram e desistem, preferindo somente atender as necessidades básicas de sexo e carinho quando necessário, e se bastando sozinhos, com seus destroços.

Algumas pessoas possuem uma resiliência muito alta e são capazes de tolerar os piores impropérios.  Maridos que traem, homens que batem, mulheres vulgares, ataques de ciúme violentos, falta de valorização do casal, egoísmo, até o ponto que passe a se viver em constante estado de anestesia, como um vegetal ou doente terminal.  O cérebro desliga e nem o corpo ou a alma sentem mais dor.

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Outras também tem uma resiliência alta, mas toleram as mazelas do outro e tentam administrá-las não só pelo amor, mas porque o(a) parceiro(a) traz para você diversas outras coisas que te beneficiam e te fazem feliz.  Não é mentira que todo o relacionamento é uma troca.  Ambos tem que se sentir bem com o outro, mantendo o constante status de situação ganha-ganha.

Tenho uma certa inveja dessas pessoas.   Não que minha resiliência seja baixa, muito pelo contrário.  Porém, sofro de um mal que afeta boa parte dos psicóticos e pessoas como a Adele e Mariah Carey.  Fui diagnosticada com o que você pode chamar de linguis descontrol, do latim, língua descontrolada, louca, maior que a boca.  Isso que dizer que, na maior parte das situações sociais, falo ou ajo desmedidamente, sem pensar no que estou dizendo ou fazendo, até que seja tarde demais.

O resultado disso são piadas constrangedoras em público,  amigos magoados e, claro, maridos e namorados putos da vida, com a resiliência deles posta constantemente a prova.  Um fato curioso do linguis é que quando os sintomas devem de fato se manifestar,  nada acontece.  Aquela língua enorme e rápida, diante de uma ameaça, fica pequena, se tranca no fundo do palato e deixa o ouvido, o coração e os demais órgãos a mercê do que vier.  E haja resiliência.

Já sai bombardeada e traumatizada de relacionamentos, já terminei amizades,  já fiquei semanas me chicoteando ajoelhada no milho  (mentira, esse último eu não fiz, mas a culpa doi tanto quanto, acreditem).   E o pior é que, grande parte das vezes, eu fui a peça da estrutura que não deu certo, que falou demais, que agiu impulsivamente, que não confiou o suficente, que não foi boa o suficiente.  Eu é que comprometi a resiliência do relacionamento.

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Não é legal ser sempre a madeira podre.  Menos ainda sofrer de linguis descontrol e não conseguir expor seus argumentos, de modo que o outro lado entenda qual foi a parcela de culpa dele.   Sim, porque eu sou daquelas que acredita que ninguém erra sozinho e que cada tijolinho do edifício tem o seu papel na hora de sustentar o arranha-céu.

Sou da old school  que defende que estar junto com alguém também é saber admitir seu próprio erro, apontar com gentileza a parcela do outro (quando possível), reconhecer suas próprias limitações (assim como as do seu consorte), e fazer sua parte para se tornar alguém melhor para a pessoa que ama, sem deixar de ajudá-la também a fazer o mesmo, nem que seja só para você.  É ser resiliente no último volume, em velocidade cinco.   E sim, a recíproca tem que ser verdadeira.

Não sei se ainda existem seguidores dessa filosofia.  Mas é fato que, independente se você é engenheiro, arquiteto, filósofo ou incoerente, amar é um exercício diário de resiliência.  There is no free lunch. Não existe almoço de graça. Principalmente para aqueles que sofrem ou decidiram se relacionar com uma linguis descontrol.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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