Ao longo dos anos, conversando com amigas e amigos, sobrevivendo ao naufrágio dos meus casamentos, lendo a frustração silenciosa nos olhos das pessoas, fui percebendo como havia sempre um elemento comum em términos e outros relacionamentos que sequer conseguiam passar do quarto encontro. Com certeza, se você já viveu um pouco mais do que a Bíblia diz ser correto, você já deve ter passado por isso, mas não sabe. Trata-se da foda-alface.

Primeiro, vamos entender o termo. Quem já passou por uma dieta conhece o macete de encher o prato com saladas, folhas verdes, que ocupam espaço mas não contam seus pontinhos na tabelinha dos Vigilantes. Elas dão aquele volume legal enquanto você come vento. Inclusive, se você inventar de almoçar só uma grande tigela cheia de alface, provavelmente não vai chegar até o final, vai ficar cansando de mastigar folha. E, terminando ou não a sua porção, dentro em pouco vai estar com fome. Isto porque você comeu mas não se alimentou. Já entendeu, né?

foda-alface

Foda-alface é aquela que não te acrescenta, não te diverte, não entretém. Na verdade, é como se ela te tirasse algo. Fosse tempo, energia, fé na humanidade. No dia seguinte vem a amiga perguntar se rolou e você dá aquele “é…” com a mesma cara de quem volta de um almoço de dia das mães em que serviram pão de camadas. Você poderia ter trocado por uma sessão de DVD (nem Blu-Ray precisa ser, minha gente!) em casa, usando moleton e meia, a pipoca podia ser sem gordura, e você ainda ia estar no lucro.

Na verdade, este estilo de coito praticado há muito pela humanidade pode ser compreendido dentro de uma razão simples. Seria algo como prazer gerado:(tempo+energia+trabalho da produção+estado das roupas e do corpo pós-safadeza). Naturalmente quando pensamos em sexo não consideramos todas as variantes do segundo membro da equação. Isso porque, em geral, pensamos em sexo bom, o que balanceia a conta e faz com que não nos preocupemos. Melhor, que tudo seja alegria.

Mas quando a realidade que enfrentamos começa a ir podando o apetite, a euforia, a vontade, o anseio, fazendo com que nos questionemos se o produto de uma operação matemática vai dar decimal, a coisa fica sensível. Se você começa a se perguntar se o sujeito é “sponge-worthy” (vale a pena), isso quer dizer que o sexo está deixando de ser um banquete, ou até um lanchinho rápido e gostoso na madrugada, para virar algo menos do que coquetel da igreja do núcleo da terceira idade. Em algum momento, você vai se dar conta de que não vale a sola dos seus sapatos.

Sim, eu sei, em algum momento da relação, geralmente antes da gente pedir o divórcio ou logo depois da culpa que deveria surgir quando demos aquela escapada com o personal trainer, a gente se vê nessas situações, sem muita chance de se esquivar. Não se culpe. Não se sinta. Ninguém está sozinho nessa.

Aliás, triste dizer, mas a foda-alface é, na verdade, uma modalidade muito mais difundida e praticada do que algo que realmente justifique a existência de mais de 7 bilhões de pimpolhos no mundo. O lance é a gente não ter que engolir todo o dia a mesma coisa.

Escrito por Agatha Tuddot

Agatha Tuddot é ruiva, workaholic, doutorada, poliglota, troglodita, e adora confundir. Terrorista filosófica, a quem os simplórios chamam de vaca feminista. Pode até falar de homens, só quando não tiver mais nada pra fazer.

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