Começou a cerimônia do Oscar.  Este ano, em particular, fica impossível não perceber a incrível tendência de levar para o reino da ficção histórias que aliviem a realidade desse povo de tantos traumas e neuroses.  Puristas diriam que isso é óbvio quando se trata de americanos.  Concordo, mas devo dizer que este ano foi uma coisa  sintomática.  Freud faria altas anotações no seu bloquinho se estivesse vivo.

Argo e A Hora Mais Escura são praticamente clones, com a diferença de que um é levemente mais alternativo do que o outro.  De um lado, uma fórmula feita para os apreciadores dos filmes pseudo independentes (o pseudo fica por conta do ex-Demolidor, ex-Jennifer-Lopez Ben Affleck, que de alternativo tem nada).   Do outro, a realização na ficção do que nunca aconteceu na realidade:  a captura do imortal vilão Osama Bin Laden.

No bolo do patriotismo, também entra Lincoln, que aproveita o talento de Steven Spielberg para construir um filme político, sobre política, para uma nação política e dicotômica até o último nível, com escolhas partidárias determinando até se os casamentos vão dar certo.   Ousaria dizer que foi encomendado, um típico filme delivery para uma nação faminta de pizza sabor patriota.

Mas o que mais me chocou mesmo foi até mesmo o Tarantino entrando nessa trend com Django Livre, um faroeste que apresenta um Obama barbudo matando todos os brancos escravocratas para libertar uma sofredora Michelle sem Seda Frizz.   Bocejos, bocejos, bocejos.  Divirto-me mais quando vou a manicure e escolho uma profissional diferente só pela emoção de saber se ela vai me tirar um bife ou não.

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Dá-lhe Obama! Acaba com esses brancos!

Por falar em sono, devo admitir que perdi algumas noites tentando entender as metáforas de As Aventuras de Pi, até mesmo porque eu sou uma das que teria acreditado na história do indiano, tim tim por tim tim.  Amo uma boa ficção!  Mas é claro que não podia ser óbvio assim.  A coisa tinha que ser toda uma grande viagem interior pela auto-descoberta de um indeciso religioso perdido no mar.   Desculpa, Ang Lee, prefiro as Adagas Voadoras e Moacyr Scliar.   Justiça seja feita, porém:  bônus para os efeitos especiais.

Indomável Sonhadora eu prefiro nem comentar.  Corro o risco de destacar alguma piada preconceituosa, como aquela que fala da tendência de Hollywood querer preencher a cota nas indicações.  Jura que essa menininha de nome estranho está concorrendo a melhor atriz?  Já vi filmagens de crianças nadando na piscina que são melhores.   O mérito vai mesmo para o roteirista e para a paciência do editor de imagem, que conseguiu usar a infantilidade a favor do tom de revolta necessário para a trama.

Minhas apostas são aqueles que restaram.   Amor,  um filme tão perturbador e doce, que dá uma lição naqueles que dizem por aí que estão apaixonados e fariam tudo pelo ser de seus desejos.   Pena que estrangeiros dificilmente tem chance, exceto na categoria que lhe diz respeito.

amor
Na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e….

A versão americana do sentimento fica com O Lado Bom da Vida, uma comedinha romântica protocolar, com direito a corridinha do mocinho atrás da mocinha no final.  Seu diferencial?  Os protagonistas tem probleminhas mentais.   Eu adorei, porque a grande verdade é que todo mundo tem probleminhas!  Já não cansei de dizer isso aqui?  O que faz a coisa dar certo é a maneira com que cada um aprende a lidar com eles (e a tolerar os probleminhas do outro).

Os Miseráveis.  Ah, a cantoria.  Ah, os efeitos.  Ai que sono.  Ai que coisa feita para ganhar estatuetas.  Gente, até colocar o Wolverine para cantar ao vivo e rapar o cabelo da Mulher Gato eles fizeram.   Avhistória não é minha favorita na Broadway, que dirá no cinema?!  Hugh talvez ganhe, merecidamente.   Hathaway também, injustamente.

Preciso dizer que me diverti imensamente com Hitchcock e achei uma injustiça As Sessões não estar concorrendo ao menos a melhor roteiro.  Tratar de uma doença como o Mal de Parkinson e falar de sexo e igreja sem ser algo grotesco,  ainda mais tomando por base um relato clínico de uma terapeuta sexual…. uau.  Eu não faria melhor.  Estou torcendo absurdamente pela Helen Hunt, não só pela naturalidade da nudez, mas porque para mim esse filme é o melhor da leva 2013.

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Hunt na corda bamba entre o grotesco e o doce feito mel

Já estamos nessa altura indo para os prêmios principais e nenhuma surpresa.  O Oscar é como aquele homem canalha,  que não sai de nossas vidas.  A gente tenta entendê-lo, faz palpites e quando menos esperamos, ele nos surpreende – e é justamente isso que faz dele tão charmoso.

Só me resta fazer um brinde para cada estatueta que conseguir adivinhar e torcer para não terminar bêbada em um domingo de madrugada.  Cabernet a postos, vamos a cerimônia!  Que o mais óbvio ganhe!  Cheers!  Salud!  Beijos da Loira.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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