Almoços de trabalho para mim são como um grande circo de horrores.  Tirando aquelas vezes em que conseguimos  reunir somente as pessoas que gostamos de verdade – e acredite em mim, no mundo corporativo esse número dificilmente chega a uma dezena -, acabo sempre me vendo amuada, observando comentários e atitudes das pessoas.

Esta semana acabei sendo convidada para um desses aniversários em que a comemoranda  acabou de ter uma filha e, claro, fez questão de levar sua criação para exibição aos demais presentes.  Nada contra crianças, acho fofas.  Juro.  Mas utilizá-las em contexto de trabalho é algo que jamais faria se um dia fosse mãe.  Não gosto nem de Zoológico, como poderia expor uma criança à aprovação alheia de estranhos, assim, sem nem cobrar um ingresso?  Never.

Enfim.  O fato é que essa mãe em especial, de todas as características incríveis que ela poderia destacar de sua rebenta super dotada, ela resolveu ressaltar a capacidade da criança de comer absolutamente tudo.   De papinha a linguiça de porco.  Normalmente eu sempre duvido de lorotas de mãe, mas dessa vez, tive provas.   A pequena não se satisfez enquanto não provou pelo menos alguma coisa do prato de cada um dos presentes.

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Arrumando sua filha para a festa da coleguinha. Você está fazendo isso errado.

Enquanto todos deliravam com a bochechuda abrindo a boca para um pedaço de torta alemã,  meu cérebro hiperativo ventilava. Até que ponto as concessões maternas são responsáveis pelo ser que nos tornamos mais tarde?  Eu mesma por exemplo.  Uma infância sendo mimada quando acertava e punida quando errava, me transformou em uma pessoa que trabalha com compensações.

Se estou fazendo tudo certinho, amo ser elogiada, receber presentes, um afago ou algo que demonstre que o outro está feliz comigo ao seu lado.  Até porque faço isso espontaneamente,  logo, porque não receber o mesmo em troca? Um “Eu Te Amo” deve obrigatoriamente ser seguido por um “Eu Te Amo Também”,  sem exceções, falhas ou desculpas.

Por outro lado, quando cometo um erro, tento fazer de tudo para minimizá-lo.  Da mesma forma, talvez por um processo de bullying não reconhecido pelos meus pais (na época não estava na moda), detesto competir simplesmente porque detesto a humilhação de perder.

Esses pequenos grandes defeitos ainda me trazem grandes dores de cabeça.  Já fiz regressão, terapia, mapa astral e aprendi alguns exercícios respiratórios para não sair falando tudo o que me incomoda sobre os seres humanos e as pessoas que me rodeiam.   Felizmente,  hoje sou uma loira que prefere escrever o que pensa em um blog do que explodir e sentenciar a humanidade ao meu julgamento. E até que sou legal, sabe?  Consegui no final das contas me tornar uma pessoa carinhosa, generosa e bastante paciente.

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Querida Sogra, eu não preciso que você me ensine como criar minhas crianças. Eu me casei com uma das suas e ele precisa de muita melhoria!

Agora, pensem comigo.  Qual será o futuro de uma criança super-alimentada, em que a mãe tem orgulho quando ela abre a boquinha para pedir uma provinha do arroz piamontese da tia?   Detesto ser fatalista, mas em alguns anos vejo uma criança gorda,  excluída do grupo A da escola,  deixada de lado nos esportes, não cabendo em nenhuma roupa e afundando suas mágoas em um grande pote de Nutella.   Isso se alguma engraçadinha não falar para ela dos benefícios da bulimia.   Ai a tragédia estará completa.

Amo a maternidade e algum dia acho que o desejo de deixar um legado vai aflorar em mim.  Sério, tenho mesmo essa sensação.   Mas não quero enquanto não me sentir preparada,  ou pronta para oferecer a uma criança o meu melhor,  para que ela possa crescer com o mínimo de traumas possíveis.  Para mim, filhos são para se ter a sensação de dever cumprido no final da vida, porque eles se tornaram seres humanos ao menos decentes, mas principalmente,  para que eles sejam seus grandes amigos ou amigas até o fim da jornada.  Sim, sou egoísta e não tenho vergonha de admitir.

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Sua filha cresceu e virou a Hannah Montana. Você fez isso MUITO errado.

Fui obrigada a devorar meu pudim de leite light em duas colheradas.   Pelo bem da criança.   Psicólogos e nutricionistas vão odiar.   Mas esta é a dose de maternidade que posso oferecer ao mundo, ao menos por enquanto.  Infelizmente a morte de mães irresponsáveis em locais públicos ainda é considerada crime.  Beijo da Loira!

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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