Dizem que a segunda vez é sempre a melhor.  Não posso negar que esta máxima tem se provado verdade no que diz respeito a casamento.  Estou com alguém que me completa, agrega conhecimento, tem o mesmo nível cultural e econômico que eu e supre as minhas carências.  Jamais poderia imaginar, porém, que em um novo compromisso, eu seria uma pessoa um tanto quanto diferente de antes.

Na primeira vez, sai de casa para morar junto com alguém esperando que fosse para sempre.  Naquela época, era uma princesa mimada, que acreditava em casas que se auto-limpavam e em contas que magicamente se perdiam no correio (ou já chegavam com o comprovante de pagamento anexado).  Aprendi na prática que copos molhados mancham móveis e que roupas coloridas não se misturam com brancas na hora de lavar, da mesma forma que descobri coisas que fazem um casamento funcionar e outras capazes de levá-lo ao fracasso.

Entre uma discussão de casal e outra,  não conseguia compreender porque o meu ex tinha uma obsessão absurda de manter tudo arrumado e organizado.   Em determinados momentos, me dava nervoso vê-lo com a vassoura na mão, varrendo e limpando.  Pior, falando da bagunça organizada que eu fazia, enquanto colocava uma flanela na minha mão e me mandava lustrar os móveis.  Eu dizia que morava com um duende nazista da limpeza, pior que a Monica Geller, de Friends.

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Esta semana, quando me vi recolhendo o tênis do meu atual marido do meio da sala, após reclamar pela centésima vez, tive um momento de epifania, daqueles que só acontecem uma vez em cada lua nova – ou quando estou no clima.  Eu havia me tornado uma Monica.   Daquela que reclama da toalha molhada em cima da cama e surta quando vê uma roupa pendurada fora do lugar.  Pior, do tipo que inconscientemente se vê lavando a louça do jantar mesmo detestando fazê-lo, só porque viu um grão de arroz em cima da pia. 

Já dizia Sun Tsu, mestre da arte da guerra, que devemos escolher nossas próprias batalhas.  Segundo ele, subjugar e apoderar-se do exército inimigo sem lutar  é o verdadeiro ápice e a suprema excelência.  E esse sábio ensinamento me voltou a mente em um momento em que estava ali, abaixada de cócoras, apoiada na vassoura e segurando um calçado na mão.  Não seria uma das minhas melhores poses no Instagram, com certeza.

Por quantas vezes em nossas vidas nós reclamamos, esbravejamos e entramos em discussões que definitivamente não nos levam a nada?  O que ganhamos com isso?  Uma dor de cabeça?  Alguns anos a menos de vida?  Nunca conheci quem tenha conseguido, através de palavrões, fazer o carro da frente  sumir para chegar na hora certa.   Muito menos alguém que berrou com o chefe e conseguiu aquela promoção – exceto talvez naquele comercial de spray pra garganta.

Nossa vida é cheia de desafios, de lutas ou de ajustes que se fazem necessários para que a fórmula 1+1 seja igual a dois.  Não só em um casamento, mas entre amigos, no trabalho e até mesmo entre estranhos.  Algumas delas são tentadoras, irresistíveis, como bater de frente com aquele sujeito que passou a sua frente na fila de 200 km no banco ou no supermercado.

Outras parecem importantes, quando na verdade só estamos com nosso orgulho ferido.  Ou ainda porque amamos tanto o outro, que queremos que ele se torne uma pessoa melhor, mais esperta, mais atenciosa, mais cuidadosa com os outros e conosco mesmo.   Mas será que vestir a armadura vale mesmo a pena?   Não sei a de vocês, mas a minha pesa muito.  Sabia que não devia ter exagerado tanto na pedraria quando pedi que a forjassem.  Além disso,  ela dá um trabalho enorme para limpar.   Quer saber? Prefiro muito mais um vestido de seda floral, principalmente neste calor que vem fazendo.

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Larguei o tênis de volta no chão.  Aquelas camisas de academia suadas, jogadas na cadeira?  Ah, estão bem assim, balançando no vento.  São quase decorativas.  Quando elas começarem a feder,  não serei eu que vou receber caretas na hora do supino reto.   Admito que quase fiz uma boa ação e as guardei de volta no armário dele.  Dobradas, junto com as roupas de sair.

Mas não.  Resolvi acender um incenso, abrir o meu armário e ir arrumar os meus sapatos, por ordem de marca e cor.   Mais produtivo, menos estressante e sem dúvida ganhei mais com isso.  Inclusive espaço para mais um na minha coleção.  Yes!  A gente se vê no shopping.  Beijos da Loira!

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Fique calma e compre novos sapatos

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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