Desde criança, sempre fui fã de O Mágico de Oz.   Essa historinha fofíssima da caipira que é levada para longe por um furacão e tem que aprender como andar nos sapatinhos de rubi para voltar para a casa sempre foi a minha cara.  Mas, ao contrário do que possa parecer, minha personagem favorita nunca foi a Dorothy.  Eu era mesmo fascinada pela Elphaba, a bruxa má do oeste.

A vilã já sabia o que era um preto básico em 1960, tinha pele verde – ou seja, era uma modelo exótica – tinha corpo escultural, vestia meias listradas muito antes de qualquer coleção da Tommy e tudo o que ela mais queria era poder usar um calçado diferenciado, para poder dominar a passarela dos tijolos dourados.   Elphaba era o sinônimo da  mal-compreendida, a frente do seu tempo e, que como qualquer mulher moderna, tinha a sua coleção de macacos voadores para criar, domesticar e controlar.  Não entendeu esta última parte? A Tia Isa explica.

Essa Dorothy de Saias Curtas…graças a ela, acabo falando com meus Macacos Voadores…

Ao longo de nossa vida, todas nós acabamos passando na mão de um canalha: o babaca que te traiu com a vaca do Facebook,  o imbecil que te pediu em namoro no segundo dia e no terceiro mês pulou fora com medo de compromisso,  e tantos outros.  Quando superamos o tombo da vassoura e partimos para o próximo relacionamento,  levamos conosco um pequeno macaquinho voador, aparentemente inofensivo.  De repente, quando a coisa começa a ficar séria, bate aquele medo bobo e o bicho começa a gritar, berrar, chutar a cela e pedir para ser solto.  E a gente surta junto.  Adeus, príncipe encantado.   Olá, banho de água fria.

A esses macacos, Freud dava o nome de Traumas.  E eles vêm de todos os tipos e tamanhos,  em diversas quantidades e formatos, mas às vezes basta apenas um para gerar todo o estrago necessário para acabar com seu Relacionamento do tipo Mundo de Oz.

Uma querida, amiga minha de infância, por exemplo,  teve o azar de ficar seguidamente com dois canalhas mais instáveis que o Espantalho e o Homem de Lata juntos. Depois de comerem do caldeirão dela até se lambuzar, quiseram pular fora para evitar compromisso e, como justificativa, não tiveram escrúpulos de falar que ela não era gostosa o suficiente.  Nasceu o Macaco da Rejeição na cabeça dela.

Nos relacionamentos seguintes,  era só o pretendente dizer que não podia transar por estar doente ou com dor de cabeça, pronto.   O macaco montava o circo, tomava conta e ela já se achava horrorosa e pouco desejada – o que era suficiente para o cara, de fato, começar a achar o mesmo.  Sim, porque quando você não se ama e dá ouvidos ao Macaco da Rejeição, fica difícil do outro amar você também.

Outra BFF já me ligou mais de uma vez, em pânico, porque achava que tudo estava tranquilo e bom demais, e que justamente por isso, tinha que ter alguma coisa errada.  Entre engasgos e soluços, dizia que algo estava para acontecer, só não sabia o que era.  Mas tinha que estar preparada, pois não aguentaria sofrer se desse tudo errado de novo.  Enquanto isso, montado nas costas dela, estava o morcegudo Macaco da Ansiedade Desnecessária, um dos piores da espécie.

A grande verdade é que sexo, comportamento, relacionamento, funciona diferente para cada ser humano.  Não é só amor e tesão, diversos outros fatores contribuem para nossa forma de agir com o outro: estresse, saúde, cansaço.   E muitas vezes, não enxergamos isso, somos egoístas.

Todos nós temos nossos Traumas, nossos macacos, isso é fato, mas também, cada um no seu galho.  É  errado jogá-los no colo do outro, esperando que ele cuide do bicho.  Sinceramente, se jogassem um símio com asas de morcego em cima de mim, acho que saia correndo e gritando, mais do que se tivesse visto uma barata.  E, as vezes, é o que acontece mesmo.

Relacionamentos em geral tem altos e baixos, não vem com manual e nem sempre o que funciona para um caso, funciona para o outro.  O macaco gritou?! Sente, converse, contenha o pequeno monstrinho, busque a sinceridade.  Diálogo é fundamental, mas não esqueça que cada pessoa é diferente da outra. As vezes, simplesmente não queremos intimidade  – precisamos ficar lá, no nosso cantinho, curtindo uma masturbação intelectual (ou literal), para nos renovarmos e voltar ao agradável convívio com aquele que amamos.  Acontece.  E cabe ao outro compreender esse seu momento e esperar que tudo fique bem novamente.

Conseguiu?  O Macaco parou de gritar?  Parabéns, você está no caminho certo, e nenhuma Dorothy de minissaia vai te tirar da estrada de tijolos amarelos.   Até porque, se o cara conseguiu entender seus macacos, e te ajudou a tranquilizá-los, é porque ele gosta de você até de pele verde, minha querida.

Se não funcionar, o macaco continuar berrando e o cara se justificando ao mesmo tempo….eu nunca duvido da intuição feminina.  Esse mágico que está com você só pode ser um charlatão.  Por isso, nada de criar mais Traumas.   Jogue o babaca num furacão e liberte as feras, deixe com que eles voem para nunca mais voltar.   Se Elphaba, a bruxa má do oeste, mulher moderna de Oz conseguiu fazer isso, com certeza você também pode.   Ou vai deixar uma casa de problemas cair em cima da sua cabeça?  Acho melhor não.  Beijos da Loira.

Escrito por Isa Schulberg

Isa Schulberg é loira, escritora, jornalista e, nas horas vagas, é psicótica, antropóloga e psicóloga. Quando não está descalça atualizando seu blog, está sempre com os pés em um salto, de olho no que rola por aí.

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