Quando a ficção é um desserviço para o amor

26 ago


Em minhas ingressões pelo universo da literatura, quando tinha cerca de 21 anos, descobri Nora Roberts.  Cheia de homens lindos, galantes, românticos, capazes de fazer tudo por suas mulheres, as histórias dessa autora me cativaram a ponto de em menos de um ano todos seus livros terem passado pelo meu crivo – ou ganharem um lugar na minha estante.   E assim foi até os dias de hoje.

Alguns relacionamentos semi-felizes depois, cheguei no meu atual com uma certa bagagem de experiência, porém proporcional a meu nível de expectativa.  Queria é casar com um desses heróis românticos, tão bem explorados por Nora e suas trilogias.   Foi preciso um taurino com uma dose de racionalidade exacerbada e um romantismo prático para me fazer chegar a conclusão de que esses homens perfeitos – para o bem ou para o mal – não existem.

Woman Reading a Diary

Sim, cara leitora.  Roarke, Nathan, Gray.  Todos eles são somente o que são, meras obras de ficção criadas para servir a um dos papéis mais baixos da ficção de folhetim  – fazer você esquecer da realidade por algumas horas, dando tudo aquilo que você almeja mas não necessariamente pode ter ou terá.  E isso não é o pior.  Cheguei a conclusão de que mais do que válvula de escape, Nora, Sparks e companhia são um verdadeiro desserviço a nós, mulheres.

Analise friamente todos os seus relacionamentos, inclusive o seu atual, se houver, e me diga: qual deles atendeu 100% esse ideal romântico que você leu nesses livros?   Preste atenção a proporção antes de responder.   Fazer eventuais gestos românticos não significa que o cara saltou diretamente das páginas dos livros para a realidade.  Se ele faz algumas coisas para te agradar, está no mínimo sendo coerente – seja seu objetivo te levar para a cama ou casar com você.

Os homens da vida real são homens da vida real e nada mais do que isso.  Lamento informar que eles não são magos, bruxos ou videntes para adivinhar o que você  deseja.   Isso quer dizer que se você não falar que seu sonho é fazer um passeio de barco no Sena, em Paris, enquanto brinda com Chandon, ele não vai chegar com as passagens magicamente só porque você idealizou isso. Reality hurts, lindinha.

Meninas que como eu se entregam a esses livros sem uma certa dose de discernimento , começam a idealizar e a sonhar com um príncipe que não existe.  E aí, quando de fato conhecem seu cavaleiro galante, perdem a oportunidade de serem felizes porque o outro não a cobriu de rosas vermelhas ou não conseguiu dar a quarta bombada na mesma noite – sem algemas.

Nora Roberts e suas similares aumentam nosso nível de exigência,  de uma forma que fica difícil voltar atrás antes que seja tarde e a solterice bata a porta.  Como nunca encontramos o herói galante, não podemos ser as mocinhas apaixonadas e, por isso, acabamos sabotando o relacionamento, dizendo que somos infelizes, ou fazendo dramas desnecessários que poderiam ser evitados com uma boa conversa sincera (daquelas que nunca acontecem na ficção).

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Meu conselho?  Dedique-se a livros de vampiros, bruxas, cavaleiros. Banque a estudiosa, a religiosa, a nerd, o que seu humor mandar. Mas esqueça a Nora.  Passe longe do Sparks.   Ou, se quiser entregar-se a esse tipo de literatura, tenha a certeza absoluta de que você está consciente da mentira.  Crie um mantra, escreva no marcador do seu livro:  esse cara não existe.   Nem nunca vai existir.   E seja feliz entregando-se aos amores efêmeros ou imperfeitos – porque é disso que a vida de verdade é feita.   E é isso o que faz dela emocionante e muito melhor do que qualquer conto de fadas.

 

Sobre meninos, lobos e derrotas

10 jul

Este não é um blog de futebol.  Muito menos um daqueles sites onde você vai encontrar posicionamento político,  nacionalidades ou unânimidades burras.  Porém, fica difícil ficar sem comentar sobre nosso jogo contra a Alemanha.  Ou, mais especificamente, sobre a forma com que lidamos com a derrota.

Tadinho do meu filho, tão injustiçado...

Tadinho do meu filho, tão injustiçado…

Desde pequenos, somos inseridos em um contexto social onde a perda não é algo aceitável.  Já na creche, vemos as mães competirem para mostrar suas crias, onde mais inteligente é aquele que falar “mamãe” primeiro ou realizar algum feito extraordinário antes do seu amiguinho.  Na escola, quando já temos alguma consciência moral, competimos com nossos colegas das mais variadas formas – quem subiu na árvore sem se machucar, a menina que tem a boneca mais bonita e por aí vai.   O importante é ser sempre o melhor, nunca estar abaixo do outro.

A coisa fica mais sintomática quando inserimos os hábitos culturais nessa salada.  Cada país tem a sua maneira de lidar com a derrota. No Brasil,  o time de futebol vem antes até da certidão de nascimento.  Orgulho do pai é aquele filho que joga bola e faz gol desde pequeno.   Meninas de ouro são aquelas que não fazem travessuras e aceitam a submissão.  A perda e os erros, porém, não existem porque nunca são culpa nossa, mas do outro.  Das condições climáticas.  Do governo.  Da promessa que não paguei para o Exu Caveira. Mimimi.

O resultado é que viramos adultos que não sabem perder e por isso buscam justificativas, não interessa se elas são plausíveis ou não.  Afinal, não era isso o que acontecia na nossa infância? O professor era ruim, o coleguinha era levado demais, a mãe do outro não dava educação,  o moleque do time adversário fez uma falta e o juiz ladrão não apitou, a namorada que me deu um fora era uma vagabunda.   Nunca fomos culpados, sempre fomos vítimas.  E continuamos sendo.

Exatamente como uma criança mimada faria, bares foram quebrados, turistas assaltados, monumentos vandalizados.  E no dia seguinte, várias justificativas – das mais técnicas as mais cretinas.  Teve site por aí perdendo tempo desenvolvendo toda uma teoria da conspiração, que só não envolvia alienígenas porque faltou dinheiro para Dilma pagar a nave espacial.

Não é dificil, assim disse SuperNanny. A lição que precisamos aprender é uma das mais básicas: saber lidar com as consequências, leia-se estar preparados para o pior e  assumir as nossas falhas.  Grandes nações são hoje quem são porque descobriram, através da derrota, que tinham força para se reerguer – estão entre elas a França, Inglaterra e… *pausa dramática*….  a Alemanha.

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Isso mesmo. A Alemanha.  Nossos tão temidos algozes aprenderam há muito tempo atrás sobre ego e suas consequências em um coisa  chamada Segunda Guerra Mundial.  Eles são lobos. Não esperava menos de um time de lobos.

E nós?  Será que aprendemos com a Copa 2014?  Vamos educar melhor nossos filhos (sem jogar toda a culpa na qualidade da educação)?  Vamos votar com consciência (sem alegar que todo o político não presta)? Vamos assumir nossos erros (sem apontar o dedo para o outro, que sempre é o filho da puta)?

Perdemos a batalha e perdemos feio. O que falta agora é abandonar o estigma e mudar a forma de agir com os outros e consigo mesmo.  Precisamos deixar de ser meninos.  Enquanto essa mudança não vem… Herzliche Gluckwunsche, Deutschland!

 

É possivel ser amigo de ex ????

30 mar

Ihain Gatas,

Estava conversando com uma amiga sobre aquelas pessoas que se dizem mega amigas de seus ex-namorados/maridos.

Será que isso realmente é possível????

 

 

 

Pra mim, quando um romance acaba, meio que aquela pessoa morre pra mim, porque fim de relacionamentos são fracassos, é um ponto final e não uma vírgula.

Até porque na maioria das vezes o término é um beneficio enooorme para a nossa autoestima.

 

Então, como transformar a prova viva de uma derrota em alguém que você pode confiar plenamente ???

Términos, mesmo os mais amigáveis, são seguidos de mágoas e tristezas. Como ser amigo de alguém que naquele momento ou está te machucando ou você esta causando dor ???

 

Aquela pessoa fez parte do seu passado, sempre fará parte de você, mas vejo como um capitulo encerrado, e que não merece continuações, no máximo uma sessão da tarde, se você estiver solteira e carente.

 

Por melhor que a pessoa seja, vocês estão em sintonias diferentes, pode ser que a  longo, muito longo prazo uma amizade venha a funcionar, mas só se as duas pessoas forem muito bem resolvidas.

 

No geral acho que dá pra ser no máximo COLEGA de ex-namorado.

Uma daquelas pessoas que a gente cumprimenta de longe, com algumas formalidades e tem conversas bem triviais, ainda mais se estivermos em um relacionamento novo.

 

Claro que o respeito deve existir, mas figurinha repetida não completa álbum. Ex bom é aquele que até pode usar na carência, desde que ambos não se submetam a flashbacks emocionais, que sempre terminam mal.

 

 

No final das contas, vamos falar a verdade né, dar chance a ex é o mesmo que comprar o mesmo carro que você vendeu, os problemas estão lá, apenas o objeto está bem mais rodado.

 

Beijinhos !!!!!!!!!

Das delícias de ser invisível

15 mar

“Tenho muito interesse e fico fascinado em ver como as pessoas se amam, mas não gostam realmente umas das outras”

As Vantagens de Ser Invisível – Stephen Chbosky

Entre um meme e outro na Internet, acabei esbarrando em um texto bem interessante sobre casais que moram juntos ou que decidiram juntar os trapos.  Se minha memória não falha, eram 10 mandamentos que deviam ser seguidos para que o casamento continuasse firme e forte.

Todos tinham um quê de verdade, mas aquele que mais me chamou a atenção falava de como era fácil nos acostumarmos com o outro em nosso dia-a-dia, a ponto de tornarmos o companheiro invisível.  É a inegável rotina, aparecendo mais uma vez como a grande vilã dos relacionamentos.  O comentário é pertinente, mas senti falta de algo mais.  Antes de nos colocarmos no status de samambaia ou objeto decorativo,  ou fazermos isso com o outro, o que nos leva a chegar a este ponto?

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Alguns diriam que é falta de amor, como se essa palavrinha de duas sílabas fosse a justificativa para tudo.  Errado.  Eu posso amar a pessoa até o cerne dos ossos, mas ainda assim, transformá-la em um objeto inanimado.  Diante das contas para pagar,  trabalhos domésticos para executar, amigos para lidar,  é muito fácil esquecer que o outro está ali, porque simplesmente ele está ali.  Fato verdade, inegável e invariável.

O que pode destruir a relação não é coisificar a pessoa.  E sim, a incapacidade de lidar com essa condição.  Posso ser mais claro:  imagine uma bolsa que você gosta muito guardada no seu armário.  Você a carrega diariamente, é parte inseparável de você.  Porém, se de tempos em tempos, você não parar, esvaziá-la de seus pertences, passar um lustrador no couro e tratar de conservá-la, em pouco tempo essa bolsa vai se desgastar.  Aquilo que não cuidamos, não dura para sempre.  Regra da vida.

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Sempre tem um para dizer: “mas eu cuido!”.   Será?  É muito fácil passar um paninho e dizer que a bolsa está limpa.  Dificil é ter aquele cuidado periódico e perder ao menos algumas horas para garantir que aquele objeto vai durar para sempre.  Ou ao menos, que seja eterno enquanto dure.  Mais do que isso: ter prazer em ter esse cuidado. Cuidar da sua bolsa não pode ser obrigação.

Quando falamos de pessoas, ter este cuidado extra significa se dar ao prazer de ir naquele restaurante mais caro, mesmo em um mês difícil para os dois,  e falar de amenidades, da terra, do céu e do ar, sem mexer no celular (a não ser que seja para estimular ou corroborar o assunto).   Significa sentar ao lado daquela pessoa em um dia comum e puxá-la para um abraço,  fazer um carinho, um cafuné, a troco de nada, apenas para lembrá-la que você estará ali para ela, não importa o que aconteça.  É também saber, as vezes, contemporizar uma discussão, mesmo que você saiba que está certo – até porque, acredito que 80% das brigas de quem mora junto, começam por motivos banais, como uma pia cheia de louças ou quem vai fazer o almoço hoje.  Feio é quando isso vira motivo para uma briga hercúlea.

Claro que ninguém é perfeito.  Não acredito que alguém no mundo seja capaz de fazer isso o tempo todo e, se houver,  acho doença passível de tratamento (todos precisam de um pouco de amor próprio).   Mas, da mesma forma, não acredito que existam pessoas que não gostem de ser mimadas, de ter seu ego lustrado, de ouvir que está bonito hoje, de se sentirem amadas.  Creio que é isso o que faz com que nós, seres humanos, busquemos a companhia do outro.  Somos gregários, queremos e precisamos andar em bando, até porque é muito chato viver somente com o próprio reflexo.

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O que você ganha com isso? A lei universal do retorno.  Cuidar da sua bolsa, significa que ela vai estar sempre pronta para atendê-lo e trazer o que você busca.  No casamento , significa se sentir amado e um estímulo para retribuir na mesma medida.  A troca, e mais do que isso, a troca por prazer, sem obrigação, é o que mantém o relacionamento vivo.  Sem ela, a invisibilidade vira solidão.  E ai, inevitavelmente e instintivamente, estaremos sujeitos a uma nova compra – e acredite, em tempos de internet, vitrines e propaganda são o que não faltam por aí.  Mas isso já é assunto para um novo post.

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