Sobre meninos, lobos e derrotas

10 jul

Este não é um blog de futebol.  Muito menos um daqueles sites onde você vai encontrar posicionamento político,  nacionalidades ou unânimidades burras.  Porém, fica difícil ficar sem comentar sobre nosso jogo contra a Alemanha.  Ou, mais especificamente, sobre a forma com que lidamos com a derrota.

Tadinho do meu filho, tão injustiçado...

Tadinho do meu filho, tão injustiçado…

Desde pequenos, somos inseridos em um contexto social onde a perda não é algo aceitável.  Já na creche, vemos as mães competirem para mostrar suas crias, onde mais inteligente é aquele que falar “mamãe” primeiro ou realizar algum feito extraordinário antes do seu amiguinho.  Na escola, quando já temos alguma consciência moral, competimos com nossos colegas das mais variadas formas – quem subiu na árvore sem se machucar, a menina que tem a boneca mais bonita e por aí vai.   O importante é ser sempre o melhor, nunca estar abaixo do outro.

A coisa fica mais sintomática quando inserimos os hábitos culturais nessa salada.  Cada país tem a sua maneira de lidar com a derrota. No Brasil,  o time de futebol vem antes até da certidão de nascimento.  Orgulho do pai é aquele filho que joga bola e faz gol desde pequeno.   Meninas de ouro são aquelas que não fazem travessuras e aceitam a submissão.  A perda e os erros, porém, não existem porque nunca são culpa nossa, mas do outro.  Das condições climáticas.  Do governo.  Da promessa que não paguei para o Exu Caveira. Mimimi.

O resultado é que viramos adultos que não sabem perder e por isso buscam justificativas, não interessa se elas são plausíveis ou não.  Afinal, não era isso o que acontecia na nossa infância? O professor era ruim, o coleguinha era levado demais, a mãe do outro não dava educação,  o moleque do time adversário fez uma falta e o juiz ladrão não apitou, a namorada que me deu um fora era uma vagabunda.   Nunca fomos culpados, sempre fomos vítimas.  E continuamos sendo.

Exatamente como uma criança mimada faria, bares foram quebrados, turistas assaltados, monumentos vandalizados.  E no dia seguinte, várias justificativas – das mais técnicas as mais cretinas.  Teve site por aí perdendo tempo desenvolvendo toda uma teoria da conspiração, que só não envolvia alienígenas porque faltou dinheiro para Dilma pagar a nave espacial.

Não é dificil, assim disse SuperNanny. A lição que precisamos aprender é uma das mais básicas: saber lidar com as consequências, leia-se estar preparados para o pior e  assumir as nossas falhas.  Grandes nações são hoje quem são porque descobriram, através da derrota, que tinham força para se reerguer – estão entre elas a França, Inglaterra e… *pausa dramática*….  a Alemanha.

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Isso mesmo. A Alemanha.  Nossos tão temidos algozes aprenderam há muito tempo atrás sobre ego e suas consequências em um coisa  chamada Segunda Guerra Mundial.  Eles são lobos. Não esperava menos de um time de lobos.

E nós?  Será que aprendemos com a Copa 2014?  Vamos educar melhor nossos filhos (sem jogar toda a culpa na qualidade da educação)?  Vamos votar com consciência (sem alegar que todo o político não presta)? Vamos assumir nossos erros (sem apontar o dedo para o outro, que sempre é o filho da puta)?

Perdemos a batalha e perdemos feio. O que falta agora é abandonar o estigma e mudar a forma de agir com os outros e consigo mesmo.  Precisamos deixar de ser meninos.  Enquanto essa mudança não vem… Herzliche Gluckwunsche, Deutschland!

 

É possivel ser amigo de ex ????

30 mar

Ihain Gatas,

Estava conversando com uma amiga sobre aquelas pessoas que se dizem mega amigas de seus ex-namorados/maridos.

Será que isso realmente é possível????

 

 

 

Pra mim, quando um romance acaba, meio que aquela pessoa morre pra mim, porque fim de relacionamentos são fracassos, é um ponto final e não uma vírgula.

Até porque na maioria das vezes o término é um beneficio enooorme para a nossa autoestima.

 

Então, como transformar a prova viva de uma derrota em alguém que você pode confiar plenamente ???

Términos, mesmo os mais amigáveis, são seguidos de mágoas e tristezas. Como ser amigo de alguém que naquele momento ou está te machucando ou você esta causando dor ???

 

Aquela pessoa fez parte do seu passado, sempre fará parte de você, mas vejo como um capitulo encerrado, e que não merece continuações, no máximo uma sessão da tarde, se você estiver solteira e carente.

 

Por melhor que a pessoa seja, vocês estão em sintonias diferentes, pode ser que a  longo, muito longo prazo uma amizade venha a funcionar, mas só se as duas pessoas forem muito bem resolvidas.

 

No geral acho que dá pra ser no máximo COLEGA de ex-namorado.

Uma daquelas pessoas que a gente cumprimenta de longe, com algumas formalidades e tem conversas bem triviais, ainda mais se estivermos em um relacionamento novo.

 

Claro que o respeito deve existir, mas figurinha repetida não completa álbum. Ex bom é aquele que até pode usar na carência, desde que ambos não se submetam a flashbacks emocionais, que sempre terminam mal.

 

 

No final das contas, vamos falar a verdade né, dar chance a ex é o mesmo que comprar o mesmo carro que você vendeu, os problemas estão lá, apenas o objeto está bem mais rodado.

 

Beijinhos !!!!!!!!!

Das delícias de ser invisível

15 mar

“Tenho muito interesse e fico fascinado em ver como as pessoas se amam, mas não gostam realmente umas das outras”

As Vantagens de Ser Invisível – Stephen Chbosky

Entre um meme e outro na Internet, acabei esbarrando em um texto bem interessante sobre casais que moram juntos ou que decidiram juntar os trapos.  Se minha memória não falha, eram 10 mandamentos que deviam ser seguidos para que o casamento continuasse firme e forte.

Todos tinham um quê de verdade, mas aquele que mais me chamou a atenção falava de como era fácil nos acostumarmos com o outro em nosso dia-a-dia, a ponto de tornarmos o companheiro invisível.  É a inegável rotina, aparecendo mais uma vez como a grande vilã dos relacionamentos.  O comentário é pertinente, mas senti falta de algo mais.  Antes de nos colocarmos no status de samambaia ou objeto decorativo,  ou fazermos isso com o outro, o que nos leva a chegar a este ponto?

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Alguns diriam que é falta de amor, como se essa palavrinha de duas sílabas fosse a justificativa para tudo.  Errado.  Eu posso amar a pessoa até o cerne dos ossos, mas ainda assim, transformá-la em um objeto inanimado.  Diante das contas para pagar,  trabalhos domésticos para executar, amigos para lidar,  é muito fácil esquecer que o outro está ali, porque simplesmente ele está ali.  Fato verdade, inegável e invariável.

O que pode destruir a relação não é coisificar a pessoa.  E sim, a incapacidade de lidar com essa condição.  Posso ser mais claro:  imagine uma bolsa que você gosta muito guardada no seu armário.  Você a carrega diariamente, é parte inseparável de você.  Porém, se de tempos em tempos, você não parar, esvaziá-la de seus pertences, passar um lustrador no couro e tratar de conservá-la, em pouco tempo essa bolsa vai se desgastar.  Aquilo que não cuidamos, não dura para sempre.  Regra da vida.

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Sempre tem um para dizer: “mas eu cuido!”.   Será?  É muito fácil passar um paninho e dizer que a bolsa está limpa.  Dificil é ter aquele cuidado periódico e perder ao menos algumas horas para garantir que aquele objeto vai durar para sempre.  Ou ao menos, que seja eterno enquanto dure.  Mais do que isso: ter prazer em ter esse cuidado. Cuidar da sua bolsa não pode ser obrigação.

Quando falamos de pessoas, ter este cuidado extra significa se dar ao prazer de ir naquele restaurante mais caro, mesmo em um mês difícil para os dois,  e falar de amenidades, da terra, do céu e do ar, sem mexer no celular (a não ser que seja para estimular ou corroborar o assunto).   Significa sentar ao lado daquela pessoa em um dia comum e puxá-la para um abraço,  fazer um carinho, um cafuné, a troco de nada, apenas para lembrá-la que você estará ali para ela, não importa o que aconteça.  É também saber, as vezes, contemporizar uma discussão, mesmo que você saiba que está certo – até porque, acredito que 80% das brigas de quem mora junto, começam por motivos banais, como uma pia cheia de louças ou quem vai fazer o almoço hoje.  Feio é quando isso vira motivo para uma briga hercúlea.

Claro que ninguém é perfeito.  Não acredito que alguém no mundo seja capaz de fazer isso o tempo todo e, se houver,  acho doença passível de tratamento (todos precisam de um pouco de amor próprio).   Mas, da mesma forma, não acredito que existam pessoas que não gostem de ser mimadas, de ter seu ego lustrado, de ouvir que está bonito hoje, de se sentirem amadas.  Creio que é isso o que faz com que nós, seres humanos, busquemos a companhia do outro.  Somos gregários, queremos e precisamos andar em bando, até porque é muito chato viver somente com o próprio reflexo.

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O que você ganha com isso? A lei universal do retorno.  Cuidar da sua bolsa, significa que ela vai estar sempre pronta para atendê-lo e trazer o que você busca.  No casamento , significa se sentir amado e um estímulo para retribuir na mesma medida.  A troca, e mais do que isso, a troca por prazer, sem obrigação, é o que mantém o relacionamento vivo.  Sem ela, a invisibilidade vira solidão.  E ai, inevitavelmente e instintivamente, estaremos sujeitos a uma nova compra – e acredite, em tempos de internet, vitrines e propaganda são o que não faltam por aí.  Mas isso já é assunto para um novo post.

A idade da inocência

10 jan

Houve uma época em que eu era jovem e ingênua, trançava o cabelo antes de dormir, só usava esmalte claro no pé e me achava uma boa pessoa por não fumar maconha. (Já dá pra sentir que a vaca foi pro brejo sem escalas, né?)

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Eu me apaixonei por um rapaz tatuado de olhos verdes. Namoramos e eu cheguei a ponderar nosso futuro juntos, pensava nos filhos lindos que ele poderia me dar. Mas havia um porém. Ele precisava crescer, se emancipar do seu passado, dos seus problemas com a família, da sua história. Lógico que todos temos nossos traumas, mas ele carregava tudo dentro dele de uma maneira muito pesada, muito doído ainda pelos fatos da sua vida. Ele fazia parecer que fora abandonado quando era ainda um bebê na porta de um matadouro e cresceu limpando chaminés e fazendo pequenos furtos nas feiras de domingo, até ser adotado pelos ciganos do circo de horrores que fazia shows cruzando o Leste Europeu no inverno. Pobres crianças de apartamento, vão ter sempre pesadelo com o elevador pifando.

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Enfim, este era pra mim o nosso problema a ser resolvido para que pudéssemos ser felizes e levar uma vida harmoniosa e pacífica. Se fosse pouco acreditar nisso, eu ainda acreditava que eu, eu, com minha literatura fina garimpada em sebos e meu amor que era mais útil do que falar a língua dos homens e dos anjos, seria a mulher heróica e transmutadora responsável pelo ascensão dele à luz e à paz. Pensando aqui, acho curioso como eu nunca tive no meu carro aquele adesivo “Eu acredito em duendes”.

Como era previsível, um dia não aguentei e dei um basta, acabei a relação sem mais novas segundas chances e segui em frente, movi minha vida, mais reto e decidida do que a onda do mar com a Angela Bismarchi (Toma aqui, pode ver de novo, nunca deixa de ficar engraçado).

Terminar foi imperdoável, seguir em frente foi uma ofensa; na cabeça dele, sou pior do que o Coringa pra Gotham, mas com um primer melhorzinho. Donde concluímos que ele aprendeu menos do que um pombo a plantar bananeira. Seguindo…

Pouco tempo depois, fui completamente arrebatada por um rapaz de ombros largos e voz rouca. Vivemos um idílio de altas velocidades ao som de baixos bem equalizados e conversas trilíngues madrugada adentro. Quando a gasolina acabou, eu entendi que para ele, um relacionamento estável era mais novo do que o iPhone10.

Então via que muitos do nossos problemas se deviam ao fato de eu estar lá pagando de Capitão Kirk, atravessando uma fronteira onde nenhuma mulher havia ido antes.

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Sendo assim, a cada crise ou briga, eu respirava fundo e compreendia que aquilo era parte do processo dele de aprendizado sobre amar e ser amado. Ai, como eu era linda e fofa, tão fofa que todos os meus elásticos de cabelo tinham cor de cotonete.

Hoje as coisas são diferentes. Não sou mais tão ingênua, mas continuo jovem (obrigada, ácido retinóico!). Muita coisa mudou, economizo na manicure fazendo só as unhas da mão, troquei a maior parte dos elásticos por grampos, entendi que nada que você faça ou deixe de fazer te faz uma pessoa mais meritória de ser salva de um prédio em chamas e estou desenvolvendo meu próprio método divinatório baseado nos desenhos que meu cabelo forma quando acordo.

Então eu me pergunto, onde foi que eu li que os problemas somem com o tempo? Que as coisas ficam mais fáceis com o passar dos anos e a chegada das contas, dos filhos e a sogra entrona sendo promovida à avó? Quando foi que eu achei de verdade que à medida que vamos ficando mais velhos, as coisas melhoram? Pior é que eu não tenho ninguém pra culpar por essa a não ser eu mesma.

Hoje? Seguranomeupau!

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Apucaráleo que eu não vim a essa vida com vocação de ser princesa da Disney; não sou a Bela pra aguentar bicho selvagem se civilizar para virar homem; não fico mais beijando sapo pra ver se vira príncipe. Até porque, não quero príncipe. Quem se lembra bem do final do filme, o Fera não vira um homem. Aquela cena toda que faz o Cirque du Soleil parecer peça de final de ano do colégio do sobrinho da vizinha termina com um dandy de gloss rosinha que tinha acabado de sair de uma propaganda da L’Oreal.

Resultado, pra ficar comigo agora, tem que ser homem, e de verdade, não pela metade, ou vem pronto, sem medinho de assumir responsabilidades e posturas reais na vida, ou vai brincar de boneca. Ou já chega sabendo que eu sou uma mulher, e não uma foto ou um cartaz do Elvgren, ou vai limpar a bunda com urtiga. Ou sabe se relacionar, sem mimimi de criança mimada precisa-me-amar, sem achar que eu tenho que adivinhar e resolver todos os problemas inventados pela sua cabeça, ou tchau. E acho bom entender que não sou filial da sua mãe para receber e atender as reclamações e frustrações que você guardou dela até chegar nisso que você chama de vida adulta.

Nada desses rapazes que vivem no reino encantado em que as cuecas brotam dobradas dentro da gaveta e a lixeira é um portal dimensional para a Comlurb, sem escalas ou mau cheiro. Chega de ter pachorra para esperar que esses Max Steel cresçam pra ver que bicho que vai dar. O bicho é isso mesmo, já deu. A vida tá correndo lá fora e você vai ficar regando pé-de-gente pra descobrir o que vai dar? Não, pessoa bonitinha!

Alguém vem transformar suas havaianas velhas em Pradas da última coleção? Alguém pega suas roupinhas de lavar quintal e transforma em tendência primavera-verão? Se o mais fácil não rola, não espere por um milagre. Aliás, pergunte a qualquer biólogo, sapos não devem ser engolidos nem beijados; devem ficar em seu habitat natural, o brejo.

O que faltou à Bela foi alguém chamando a atenção da moça para o fato de que se você não sabe segurar um talher e comer sem expor o excelente trabalho do seu dentista, seu lugar não é sentado à mesa comendo de pratos de porcelana. É com os cavalos, bebendo água do tonel e dormindo no feno.

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